Pesquisa inédita revela impacto do racismo na construção da masculinidade negra no Brasil


Estudo conduzido pelo Promundo escuta jovens e homens negros em cinco estados e revela como o racismo estrutura normas de masculinidade, saúde mental e experiências de violência.


O Instituto Promundo acaba de lançar uma pesquisa inédita que aprofunda a discussão sobre como o racismo impacta a construção da masculinidade negra no Brasil. Com entrevistas e grupos focais realizados com jovens e homens negros em cinco estados – Bahia, São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco e Distrito Federal – o estudo revela que as experiências de discriminação racial estão intimamente ligadas à forma como esses homens aprendem a se comportar, se proteger, se relacionar e sobreviver em uma sociedade marcada por desigualdades estruturais.

Mais do que um levantamento estatístico, a pesquisa é um chamado à escuta, à empatia e à formulação de políticas públicas que reconheçam que a vivência masculina negra é atravessada por múltiplas formas de violência, exclusão e resistência.

“Há um peso que os meninos negros carregam desde muito cedo. São vistos como ameaça antes de serem vistos como crianças. Isso molda profundamente o modo como eles se relacionam com o mundo, com o próprio corpo e com as emoções”, explica Rodrigo Azevedo, sociólogo e coordenador da pesquisa no Promundo.


O que dizem os dados e os relatos?

O estudo combinou métodos quantitativos e qualitativos. Foram mais de 800 participantes, com idades entre 15 e 35 anos, incluindo adolescentes em situação de vulnerabilidade, trabalhadores periféricos, estudantes universitários, jovens pais, entre outros perfis.

Os resultados apontam para três eixos principais:

1. Racismo como condicionador da masculinidade:
Homens negros relataram aprender desde cedo que precisavam ser “durões”, “fortes” e “vigilantes” para se proteger de abordagens policiais, discriminação escolar e estigmas sociais. Essa pressão para performar uma masculinidade invulnerável foi associada a um silenciamento emocional e ao afastamento de práticas de cuidado.

2. Impactos na saúde mental:
Mais de 60% dos participantes relataram já ter sofrido sintomas de ansiedade ou depressão relacionados a episódios de racismo. O medo constante de serem criminalizados, a sobrecarga de expectativas familiares e a falta de espaços de escuta foram apontados como barreiras para o bem-estar. Poucos buscaram ajuda psicológica, seja por estigma ou falta de acesso.

3. Relações afetivas e paternidade:
Embora muitos homens tenham expressado o desejo de construir vínculos afetivos saudáveis e romper com padrões violentos herdados, os entrevistados relataram dificuldade em expressar afeto, insegurança em relação à paternidade e conflitos com parceiros e parceiras – muitos deles mediados pelas pressões do racismo estrutural, da pobreza e da marginalização.

“A gente não nasce querendo ser agressivo ou distante. A gente é empurrado para isso porque a sociedade já espera que a gente seja o problema”, disse um dos entrevistados, jovem negro de 23 anos, morador da periferia de Salvador.


Um estudo com potência transformadora

A pesquisa foi construída com base em metodologias participativas e escuta ativa, buscando respeitar os saberes locais e as subjetividades dos participantes. Além da produção acadêmica, o estudo resultará em materiais pedagógicos e propostas de políticas públicas para educação antirracista, promoção da saúde mental e programas de cuidado voltados a homens negros.

“Nosso compromisso é com a escuta e a transformação. Não basta apenas diagnosticar: é preciso criar condições para que esses homens possam reconstruir suas trajetórias sem carregar o peso da culpa, do silêncio e da solidão”, afirma Rodrigo Azevedo.

O estudo também chama atenção para a necessidade de se pensar políticas de gênero no Brasil que sejam racializadas – isto é, que compreendam que as experiências masculinas são profundamente diferentes quando atravessadas pelo racismo, e que a luta por equidade de gênero precisa dialogar com a luta antirracista.


Próximos passos: política pública, educação e escuta

Com os resultados em mãos, o Promundo já iniciou articulações com redes de educação, organizações negras e coletivos de juventude para ampliar o debate nas escolas, universidades, centros de juventude e serviços públicos.

Além disso, serão realizados seminários regionais para apresentação dos dados e construção conjunta de propostas locais. O objetivo é que o estudo sirva como base para políticas públicas voltadas ao cuidado com jovens e homens negros, com ênfase em ações nas áreas de educação, cultura, saúde e justiça.

A publicação completa será disponibilizada gratuitamente no site do Promundo e poderá ser utilizada como referência por pesquisadores, gestores públicos, professores, ativistas e organizações da sociedade civil.


Para mais informações, escreva para: contato@promundo.org.br

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