Fortalecer Saberes, Cuidar de Territórios: Promundo Realiza Encontro com Jovens Indígenas da Amazônia Legal


Iniciativa reúne juventudes indígenas de diferentes povos para debater masculinidades, saúde coletiva e estratégias de resistência frente às violências de gênero e ao avanço sobre os territórios.


Em abril de 2025, o Promundo promoveu, em parceria com organizações indígenas da Amazônia Legal, um encontro histórico com jovens lideranças de diversos povos originários para dialogar sobre as transformações nas masculinidades, os impactos da colonização nas relações de gênero e o papel da juventude na defesa dos territórios e saberes ancestrais.

O encontro, realizado em território Yanomami, no estado de Roraima, reuniu cerca de 40 jovens indígenas de povos como Tikuna, Baniwa, Munduruku, Xavante, Guajajara e Baré, além de educadores, lideranças espirituais e representantes de organizações de base comunitária. Ao longo de quatro dias de atividades, os participantes compartilharam histórias, práticas de cuidado e estratégias para enfrentar violências — sempre respeitando as cosmologias e visões de mundo próprias de cada povo.

“Não estamos aqui para levar soluções prontas, mas para escutar e construir caminhos com base nos saberes dos povos. É preciso reconhecer que as violências de gênero nos territórios indígenas estão profundamente ligadas ao racismo estrutural, à invasão territorial e à negação da autonomia cultural”, afirma Daniela Araújo, assessora de programas do Promundo.


Juventudes indígenas: entre heranças e rupturas

Um dos focos do encontro foi compreender como os jovens indígenas estão lidando com os conflitos entre tradições e pressões externas, como o contato forçado com sistemas de ensino e saúde não indígenas, a presença de grupos religiosos e o avanço de projetos extrativistas e urbanos sobre os territórios.

Muitos jovens relataram o desafio de manter vivas as práticas comunitárias e de cuidado coletivo frente a discursos que reforçam modelos de masculinidade hegemônica, marcados por autoritarismo, repressão emocional e dominação sobre as mulheres.

“Quando dizem que ser homem é ser o mais forte, o que manda, o que não chora, isso não é o que aprendemos com os nossos velhos. Para nós, homem de verdade é o que cuida da floresta, da roça e dos filhos”, contou um jovem Guajajara participante da roda de conversa.


Masculinidades indígenas: diversidade e ancestralidade

Ao contrário da ideia de uma masculinidade única, o encontro reforçou que os povos indígenas têm formas plurais e coletivas de vivenciar os papéis de gênero, muitas vezes baseadas no equilíbrio com a natureza, no cuidado intergeracional e no respeito às mulheres, anciãos e crianças.

A discussão sobre masculinidades foi conduzida com muito cuidado, com a mediação de lideranças espirituais e de mulheres anciãs que destacaram a necessidade de envolver toda a comunidade nas transformações culturais.

“Precisamos tomar cuidado para que a luta contra a violência de gênero não repita o erro da colonização: impor o que é certo. Cada povo tem seu tempo e seus caminhos. Mas é preciso escutar as mulheres e proteger nossas meninas, porque o mundo lá fora chega e machuca”, alertou uma anciã Baniwa durante o encerramento do círculo.


Ferramentas para o diálogo intercultural

Como desdobramento do encontro, o Promundo e os parceiros locais produzirão uma cartilha bilíngue (português e línguas indígenas) com propostas de atividades, rodas de conversa e materiais audiovisuais desenvolvidos pelos próprios jovens participantes. A cartilha será distribuída em escolas indígenas, associações comunitárias e centros de formação de lideranças jovens.

A iniciativa também visa contribuir com o fortalecimento de políticas públicas que respeitem o protagonismo dos povos tradicionais e suas juventudes, sobretudo nas áreas de educação diferenciada, saúde mental comunitária, enfrentamento às violências de gênero e sustentabilidade territorial.

“Os jovens indígenas estão na linha de frente de muitas lutas. Eles carregam a dor das perdas, mas também a força da ancestralidade. Nosso papel é caminhar junto, sem impor, oferecendo apoio onde somos chamados”, finaliza Daniela Araújo.


Próximos passos

A partir das escutas e demandas levantadas durante o encontro, o Promundo iniciará em 2025 uma série de formações em parceria com universidades indígenas, movimentos de juventude e secretarias de educação indígena. Também está prevista a ampliação de pesquisas sobre masculinidades nos territórios e a construção de protocolos comunitários de enfrentamento à violência.

A defesa da vida dos povos indígenas passa necessariamente pela valorização de seus modos de ser, de cuidar e de viver em comunidade — e esse compromisso seguirá guiando as ações do Promundo em toda a Amazônia Legal e no restante do país.


A cartilha digital será lançada em julho de 2025 e estará disponível gratuitamente 

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