Entrevista com Jorginho

“O legado é também nos tornar mais críticos”

Lateral direito da Seleção Brasileira campeã do Mundo em 1994 e atual técnico do Al Wasl, dos Emirados Árabes, o ex-jogador de futebol Jorginho é o padrinho da campanha ‘Não é curtição, é exploração sexual contra crianças e adolescentes’. Lançada pelo Instituto Promundo com financiamento da OAK Foundation nas cidades que lideram o ranking de prática de Exploração Sexual Comercial de Crianças e Adolescentes (ESCCA) no Brasil, a campanha leva uma mensagem educativa, contribuindo para desconstruir alguns mitos e tabus sobre a prática.

Jorginho, que foi criado em Guadalupe, Zona Norte do Rio, onde fundou a ONG Bola pra Frente, fala sobre a importância de abraçar a causa e revela o que considera ser o maior legado da Copa do Mundo para o Brasil.

1) A prática de turismo sexual envolvendo jovens e crianças se amplia nos grandes eventos esportivos, dado o aumento do volume de estrangeiros. Mas essa realidade não é exclusiva dos grandes campeonatos. Você já presenciou alguma situação desse tipo ao longo da sua vivência em outros países?

Eu joguei na Alemanha entre os anos de 89 e 94 e lembro que existiam muitos voos de Frankfurt e Munique para Recife, onde a prática de exploração sexual de crianças e adolescentes era frequente. Saíram muitas reportagens na época, acusando inclusive agências de viagens envolvidas.
E a imagem que, por exemplo, o alemão e o europeu têm da mulher brasileira é muito nesse sentido, infelizmente. Por um lado, conseguimos exportar algumas coisas do Brasil muito legais, como o nosso samba e o carnaval. Mas, por outro, há turistas que vêm pra cá acreditando que todas as mulheres vão ficar seminuas, em qualquer época no ano. Então, precisamos ter todo o cuidado, porque essa é a imagem que muita gente tem do Brasil.

2) O cenário de festas e excessos na vida dos jogadores contribui de alguma forma para essa imagem?

Os jogadores têm o hábito de sair, ir a festas, noitadas e, muitas vezes, nem sabem nem se há jovens menores envolvidas ali. O que acontece é que o atleta está muito mais exposto. Mas isso acontece em qualquer camada da sociedade, qualquer mercado de trabalho. A gente sabe de coisas absurdas, mas o atleta aparece na mídia porque é uma pessoa pública.

3) As ‘Marias Chuteiras’ ainda são uma realidade no futebol?

É lamentável, mas isso é ainda muito presente no meio do futebol, até mesmo pela realidade de onde a gente vem, em geral, de uma família muito pobre, sem condição. O cara quer buscar um relacionamento ou uma relação sexual, mas não consegue uma menina bonita. E com a fama isso muda. O grande problema é que o jogador não está preparado para encarar essa situação, e cai de cabeça.

4) Sabemos que as tecnologias, como a internet, trouxeram novas formas de exploração sexual de crianças e adolescentes. Você, que tem uma filha adolescente de doze anos, como faz a vigilância dos acessos dela à internet?

Procuramos estabelecer alguns limites de uso da internet. Costumamos bloquear visitas a alguns sites, por exemplo de relacionamento ou com conteúdo pornográfico. Nós limitamos um pouco o uso do computador. Mas é claro que, hoje em dia, existe o smartphone. Por isso temos que ter uma conversa, um diálogo muito franco, sempre mostrando a importância de ter cuidado, já que nem todo mundo é realmente aquilo que se diz ser. Muita gente chega como se fosse uma criança de doze anos, um pré-adolescente ali, mas é um adulto.

5) O que o levou a participar da campanha ‘Não é curtição, é exploração’?

É um absurdo alguém abusar de uma criança e eu me sinto grato em ter minha imagem contribuindo para esta campanha.

6) Qual legado você acredita que a Copa do Mundo vai trazer para o Brasil?

Sempre tivemos as ruas enfeitadas nas copas do mundo anteriores. Só que estamos agora vivenciando uma Copa do Mundo aqui e vendo como estão sendo aplicados os investimentos. Nós do esporte já temos um legado: estádios maravilhosos, hotéis e estradas melhores. Só que também precisamos do padrão FIFA em outras áreas importantes, como segurança padrão FIFA, educação padrão FIFA, saúde padrão FIFA… O legado é também nos tornar mais críticos. Por incrível que pareça, só um evento tão grande como esse foi capaz de levar novamente o povo às ruas. Qual foi a última vez que fomos às ruas? Na nossa geração? Só na época do Collor. Quem está protestando não é vândalo.

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