Entrevista com Carlos Zuma

Carlos Zuma. Foto: Renato Stockler/Na Lata.Carlos Zuma é psicólogo e um dos fundadores do Instituto Noos, organização pioneira no Brasil no trabalho de envolvimento dos homens no questionamento dos padrões de masculinidade. No final de 2014, tornou-se membro do WomanChangeMakers em reconhecimento pelo trabalho de mais de 20 anos do Instituto Noos na prevenção da violência intra-familiar. O Noos é parceiro do Promundo no Projeto Mais Pai! onde é responsável por realizar grupos reflexivos com homens autores de violência.

Fale um pouco sobre sua trajetória profissional.

Eu me formei em Psicologia em 1984. Trabalho há muito tempo com pacientes graves, pacientes psicóticos, trabalhei também em hospital psiquiátrico e foi com esse trabalho com pacientes graves que comecei a me interessar por questões de relações familiares. Depois fiz um curso de formação em Terapia de Família e no final do curso, eu e mais três colegas, outro psicólogo e dois psiquiatras, fundamos o Instituto Noos, em 94. Foi atendendo famílias dentro da instituição que a gente foi se deparar com os casos de violência dentro das relações familiares. Situações, muitas vezes, que chegavam até nós sem essa denominação, pessoas que vinham buscar a ajuda do Noos, mas não caracterizando aquele problema como violência. Às vezes chegava como problema de depressão ou problemas escolares de uma criança e quando a gente investigava percebia que ali havia uma situação de violência.

Como é a atuação do Instituto Noos?

O Noos foi criado para divulgar a visão sistêmica, que é a abordagem teórica que nos embasa, no intuito de mostrar para as pessoas que uma visão integrada, que considera todas as inter-relações entre as pessoas, são mais potentes do que quando a gente aborda uma pessoa só. A visão sistêmica dentro da Psicologia vem dar essa contribuição de tirar o foco da cabeça das pessoas, do que acontece no intra-psiquico, e botar o foco nas relações, em como as pessoas estabelecem suas relações, como é que lidam com essas relações, como estabelecem esses vínculos nas suas famílias, nas suas comunidades. Colocando o foco aí, a gente tem um resultado em termos de intervenção mais acelerado, mais rápido, do que simplesmente quando abordamos uma só pessoa e esperamos que essa pessoa vá fazer toda uma mudança nos seus relacionamentos sozinha. Temos resultados mais rápidos quando a gente aborda a família inteira.

Quando isso é possível o tratamento é bem mais rápido. Mas nem sempre é possível. Quando há uma diferença muito grande de poder dentro da família ou quando alguém está subjugado a outra pessoa, é muito difícil você fazer com que essas pessoas estejam no mesmo espaço, que elas se sintam confortáveis em colocar tudo o que está acontecendo com elas. Porque provavelmente quando voltarem para casa aquele que está submetido vai sofrer violência novamente. Às vezes, temos uma situação de violência grave acontecendo, mas não há uma situação em que alguém está subjugando a outro, às vezes, a violência é recíproca. Nestas situações, a terapia de casal e a terapia de família é super recomendada. Aí a gente consegue ter uma aceleração nos resultados. Quando há uma diferença grande de poder, o ideal é que a mulher participe de um grupo de mulheres e os homens participem de um grupo de homens, até que a gente consiga equilibrar um pouco mais a divisão de poder e consiga trabalhar com todos os envolvidos.

Como é o trabalho realizado com homens autores de violência que o Noos realiza no projeto Mais Pai?

O Noos realiza esse trabalho desde 2000, inicialmente os grupos não eram voltados para situações de violência, na verdade nós começamos os grupos reflexivos para reunir homens para conversar sobre o que é ser homem, sobre masculinidades e sobre o que envolvia o fato de ser homem na sociedade hoje. Discutir sobre o que cada um sentia, uma troca de experiência. Com o tempo, a gente foi vendo que essa mesma tecnologia servia para fazer parte de um programa de prevenção à violência intrafamiliar. Mas a ideia de se reunir homens e discutir masculinidades, independente do tema violência, ainda acontece.

Então, as discussões nos grupos não giram em torno só da questão da violência, correto?

Exatamente. Quando a gente começa um grupo com homens a gente faz um levantamento de temas que interessam a eles serem discutidos. E os homens escolhem vários temas como a relação com a mulher, relação com os filhos, questões de trabalho, abuso indevido de álcool e drogas, até espiritualidade e religiosidade. Enfim, são temas vastos, muitas vezes a gente tem que sintetizar, porque ultrapassam o número de encontros possíveis para aquele trabalho.

Quanto tempo de trabalho com cada grupo?

São 10 semanas, 10 encontros de duas horas cada. E tem o 11º encontro que é o Grupo Focal, uma avaliação que é feita por outros profissionais que não aqueles que conduziram os encontros, que serve para avaliar o trabalho, ver se a expectativa deles foi alcançada e como eles avaliam o impacto deste trabalho na vida deles.

Os homens que participam dos grupos são encaminhados para cumprir pena por terem cometido violência doméstica?

Uma parcela dos homens vem encaminhados pela Lei Maria da Penha, mas tem uma outra parcela, gosto de ressaltar, que busca espontaneamente a Instituição. Eles não foram denunciados, a mulher deles não deu queixa, mas eles se tornaram conscientes de que muitas de suas atitudes são violentas e eles procuram ajuda porque desejam parar com esse comportamento.

Como a Lei Maria da Penha tem influenciado o trabalho do Noos?

A gente trabalhava com grupo de homens antes mesmo da Lei Maria da Penha. Com a Lei, o que mudou é a forma como os homens chegam até nós, pois agora também vêm encaminhados pela justiça, ou seja, não é só por demanda própria. Eles foram julgados, condenados, e a pena é participar desses grupos. A diferença que a gente percebeu é que esses homens que não vieram por demanda própria, muitas vezes chegam quase como vítimas também. Ou seja, eles questionam o que estão fazendo ali, não entendem porque estão sendo penalizados. É como se dissessem: “Meu avô batia na minha avó, meu pai batia na minha mãe, eu bato na minha mulher e agora estou sendo proibido disso? Quando isso mudou e não me avisaram?”. Se você olha historicamente para as leis brasileiras do século XIX, por exemplo, estava previsto que um homem pudesse disciplinar sua mulher e, até matar, se descobrisse uma traição. Se a gente toma a lei como uma expressão máxima da cultura de um povo, das normas de um povo, a gente percebe que isso estava previsto. Então, de fato, a gente está lidando com uma mudança cultural grande, importante, e em pouco tempo. Por isso, temos que usar todos os recursos para acelerar essa mudança. A gente tem que reconhecer que esse tipo de comportamento é um erro, traz consequências nefastas para as pessoas, e que a mudança tem que acontecer no sentido de ajudar as pessoas a entrarem em outro estágio de relacionamento, que os direitos sejam equivalentes e que ninguém tenha mais poder do que o outro dentro de uma família.

Quais as mudanças percebidas nos homens que participam dos grupos?

A gente percebe mudanças. Claro que tem sempre aqueles homens mais resistentes que não querem mudar, que não querem transformar sua atitude, que querem continuar encarando sua mulher como submissa, como um objeto. Mas a gente percebe também que a maioria dos homens quer estabelecer outro comportamento com aquela mulher, eles se sentem perdendo também aquilo que mais prezam que é a família, a relação com a mulher e a relação com os filhos. Muitos homens começam a buscar ajuda quando percebem que o seu comportamento, que eles justificam ser para preservar a família, está tendo o efeito contrário. Ao invés de manter as relações de forma saudável, ele está criando um conflito dentro daquela família e um afastamento daquelas pessoas que ele mais preza. Então, começa o conflito interno, ele começa a questionar se a maneira que ele está acostumado a agir, que ele aprendeu com o pai ou com o avô, continua válido ou não.

O que significa para você ter sido nomeado membro do WomenChangeMakers?

Foi uma grande surpresa, porque foi espontâneo, não teve inscrição. Na verdade eu me tornei membro de uma rede de pessoas que lutam por uma mudança na sociedade. É um reconhecimento de uma trajetória de muitos anos da instituição. Ficamos muito contentes porque somos pioneiros em envolver os homens nessa mudança de cultura. Porque sempre acreditamos que os homens tinham que ser objeto de transformação, serem aliados nesta busca, pois eles também perdem quando a cultura patriarcal, machista impera numa sociedade. Eles também são vítimas dessas normas que engessam as possibilidades de estar no mundo, de se relacionar, de desenvolver seus afetos, suas emoções. O reconhecimento desse pioneirismo em colocar o homem nesse lugar é muito importante.

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