Quando ninguém está olhando: Três anos de recuperação na República Democrática do Congo

avaliacao-living-peace

Resultados da avaliação de impacto de uma intervenção psicossocial para prevenir violência entre parceiros íntimos junto a homens.

Escrito por Henny Slegh e Marian Tankink

Originalmente publicado no blog (em Inglês) da Sexual Violence Research Initiative (Iniciativa de Pesquisa sobre Violência Sexual).

Quando a República Democrática do Congo (RDC) está nas manchetes, conflito, guerra, e estupro são, muitas vezes, o foco. E nós deveríamos estar prestando atenção: quase um quarto das mulheres na RDC foram vítimas de violência sexual relacionada a conflitos, e quase dois terços foram vítimas de violência de um parceiro.

É difícil ouvir as estatísticas, mas isso é essencial para compreendê-las. Em 2012, o Promundo, em colaboração com parceiros, iniciou uma investigação sobre as causas profundas da violência sexual e baseada em gênero e da desigualdade de gênero em meio ao conflito em curso no leste da RDC.

Por meio de nossa Pesquisa Internacional sobre Homens e Equidade de Gênero – IMAGES, encontramos ligações entre a exposição dos homens ao trauma e à violência (que quase todos os indivíduos congoleses vivenciaram) e seu uso da violência contra parceiras. Também descobrimos que os homens e as mulheres geralmente lidavam de forma diferente com experiências traumáticas: homens frequentemente relatavam lidar com sua frustração, vulnerabilidade e impotência (inclusive financeiramente, ou em resposta ao estupro de suas parceiras), por meio do uso de álcool, promiscuidade sexual, violência física, ou rejeição das parceiras que foram violentadas sexualmente.

A iniciativa Living Peace (Vivendo a Paz) foi desenvolvida para mudar isso. Como uma intervenção psicossocial, visa prevenir de forma mais profunda a violência, ao desconstruir ideias prejudiciais sobre o que significa ser homem, bem como ajudando homens a adotarem estratégias não-violentas para lidar com o trauma. Promundo desenvolveu e conduziu o projeto-piloto da iniciativa em 2013 com 324 homens e suas parceiras, com o apoio do Fundo LOGiCA do Banco Mundial.

Desde então, Living Peace vem sendo implementada e ampliada localmente por parceiros congoleses e com o apoio financeiro do Ministério das Relações Exteriores da Holanda, para chegar a dezenas de milhares de indivíduos, comunidades adicionais e até mesmo à polícia e aos militares no leste da RDC.

Ao longo da intervenção com duração de 15 semanas, os participantes discutem como  guerra e conflitos influenciaram a maneira com que eles definem o que é “ser homem”; exploram suas próprias dores e traumas; e aprendem a lidar com perdas e raiva. Ao invés de enxergar estes homens como parte do problema, nós os estimulamos a construírem confiança uns com os outros e a discutirem suas próprias experiências na busca de criar a paz de espírito e em suas casas.

Imediatamente após a intervenção piloto em 2013, vimos uma redução significativa no uso de violência por parte dos homens, bem como outros resultados promissores. Mas ficamos em dúvida se estes resultados durariam. Com o apoio da Sexual Violence Research Initiative, tivemos uma oportunidade rara para descobrir.

Conduzimos uma avaliação de impacto da fase piloto, três anos mais tarde. Uma equipe de seis pesquisadores locais independentes da RDC entrevistaram 40 ex-participantes dos grupos piloto Living Peace, suas esposas, e outros (tais como membros de família, amigos, vizinhos e informantes-chave da comunidade). O Instituto Living Peace, em Goma, implementou o estudo sob a direção de dois pesquisadores internacionais do Promundo.

O que descobrimos foi uma mudança importante e sustentável. Cerca de 10 famílias (de um total de 40) relataram (principalmente temporariamente) recaída em velhos hábitos de abuso de álcool, levando a conflitos sobre o dinheiro em casa. No entanto, a maioria dos homens, mulheres, membros da comunidade e familiares relataram que a violência em casa parou por completo; que a atmosfera na casa tornou-se mais agradável; que os homens estão mais positivamente envolvidos em tarefas domésticas e de cuidado com as crianças; que as mulheres se envolveram mais nas tomadas de decisão relacionadas a investimentos domésticos; e que a situação socioeconômica das famílias tem melhorado significativamente como resultado da participação dos homens na intervenção. E dados de vários grupos de informantes-chave mostraram respostas positivas semelhantes, com parentes, vizinhos e outros que confirmam as mudanças positivas relatadas.

Em um contexto de conflito e guerra, e numa sociedade em que os homens são geralmente quem tem a última palavra sobre as esposas e filhos, é essencial tanto entender o que levou a uma mudança tão drástica ao longo de 15 semanas e, fundamentalmente, como essa mudança se manteve por três anos.

Em parte, o impacto de longo prazo dessas mudanças reside na importância cultural do programa. Os facilitadores congoleses trabalharam uma abordagem de paz e harmonia com os participantes homens, ao invés de uma abordagem de equidade de gênero, tipicamente percebida como importada de países ocidentais. Esta abordagem ajudou os homens a aceitarem os grupos e, consequentemente, a desenvolverem uma maior autoconsciência: a compreensão de como seus próprios traumas e perdas influenciam seu comportamento e a definição de formas alternativas e mais construtivas de lidar com problemas e desafios.

A melhoria visível da situação socioeconômica de suas famílias e bem-estar psicossocial é outro fator. Devido à Living Peace, a maioria dos homens parou ou reduziu o uso de álcool, o que teve benefícios imediatos de aumento na renda familiar e produziu uma redução associada ao estresse e violência em casa.

Emmanuel, um ex-participante, diz: “Desde que eu parei de beber conseguimos economizar dinheiro e estamos emocionalmente e psicologicamente mais estáveis.” Muitas mulheres relataram que, desde a intervenção, os maridos pediram desculpas pela violência que eles tinham cometido, e que se sentem mais seguras como resultado do programa.

Mulheres dizem que agora falam e discutem com seus maridos ao invés de vez de brigar. A esposa de Emmanuel, Louise confirma: “Embora pode acontecer de eu provocá-lo, ele continua calmo, eu não me bate mais como fez ao longo de nove anos… Se há crise, não tenho mais medo.”

As esposas dos participantes agora se sentem mais empoderadas para recusar sexo com seus parceiros quando não estão de bom humor, sem medo de sexo forçado ou violência, como era antes. Além disso, todas as mulheres que relataram terem sido estupradas revelaram que seus maridos começaram a aceitá-las completamente, bem como seus filhos nascidos dessa violência.

Estas mudanças pelas quais os homens estão passando irradiaram efeitos positivos para as mulheres e crianças, que relatam mais harmonia e paz em casa, bem como uma melhor saúde física. Outros membros da comunidade e parentes começaram a adotar estes novos comportamentos não-violentos e colaborativos depois de testemunharem seus impactos positivos. Muitos homens disseram que esses fatores, bem como outras recompensas sociais, tais como serem mais bem respeitados e menos isolados em suas comunidades, têm motivado que eles não recaiam em velhos maus hábitos.

Talvez o fator mais forte que levou a uma mudança de comportamento sustentável seja que os próprios homens percebem recompensas imediatas e duradouras por mudarem. Esses homens, como Diogène, um soldado e ex-participante de Goma, sentem-se orgulhosos de seus novos papeis como maridos, pais responsáveis e membros respeitados da comunidade. Ele diz: “Desde a minha mudança, pela primeira vez me senti orgulhoso, porque eu me vi como um modelo para a minha família e meu bairro.”.

Os resultados são promissores e indicam que a metodologia Living Peace, com foco no bem-estar psicossocial dos homens, conduz à prevenção de violência por parceiro íntimo e contribui para maior apoio da equidade de gênero. Saiba mais sobre Living Peace aqui.

voltar ao índice