Organização afiliada ao Promundo apresenta impactos de Living Peace na plenária de encerramento da Reunião Anual da Iniciativa Global Clinton

Benoit Ruratotoye é Diretor de Pesquisa e Treinamento do Instituto Living Peace, organização afiliada ao Promundo na República Democrática do Congo (RDC). No dia 21 de setembro de 2016, ele se juntou ao ator e cineasta americano Ben Affleck, ao ex-presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, entre outros, para se apresentar na plenária de encerramento da Reunião Anual da Iniciativa Global Clinton (CGI, na sigla em Inglês). Leia as suas observações sobre paz e recuperação na RDC e assista a sua apresentação (em Inglês, a partir do minuto 9:05) abaixo:

Escuta e Empatia: Living Peace na República Democrática do Congo

Por Benoit Ruratotoye, Instituto Living Peace

benoit-ruratotoye-300x300Nos últimos 20 anos, perdemos milhões de vidas. Quase uma em cada quatro mulheres – incluindo Kyalu, que foi sequestrada em 2008 – sofreram violência sexual relacionada ao conflito e o trauma atingiu a vida de quase todos, incluindo a minha.

Esse trauma – de ver membros da família morrendo, sendo feridos ou forçados a sair de casa – deixou um legado duradouro em nossas comunidades. Eu vi isso comprometer a segurança física, o bem-estar e a capacidade de ganhar a vida de homens e mulheres.

Mas há outro efeito colateral da guerra na RDC. As mulheres que foram estupradas são muitas vezes rejeitadas por suas comunidades e famílias, aprofundando o estigma e o isolamento. Esses sentimentos negativos – e essa dor – quando não são trabalhados, podem destruir relacionamentos e levar a mais violência em casa.

Três meses após o sequestro, Abby e Kyalu finalmente se reuniram. Ao invés de ser um momento de alívio e alegria, Abby, o marido de Kyalu, nos disse: “Descobrir o que eles fizeram com minha esposa era insuportável.”. Ele disse que se sentia impotente para fazer qualquer coisa, e que o trauma o deixou louco. Ele descontou isso em Kyalu.

Nossa pesquisa descobriu que, enquanto quase um quarto das mulheres vivenciou violência sexual relacionada a conflitos, quase dois terços vivenciaram violência de um parceiro masculino. Isso significa que, muito depois do conflito terminar, seus efeitos podem habitar nossas casas.

Eu ajudei a iniciar a Living Peace em 2013, com Promundo, HEAL África e outros parceiros. Depois de lidar com minhas próprias experiências pessoais de violência e vendo isso afetar meus amigos, meus vizinhos, meus colegas por muito tempo, eu sabia que tínhamos que fazer algo sobre isso. E as mulheres estavam nos pedindo ajuda: para alcançar seus maridos e por fim ao estigma de terem vivenciado violência sexual.

Serviços diretos de saúde e apoio para os que sofrem de violência são, absolutamente, um primeiro passo essencial para a recuperação, mas para evitar que essa violência continue existindo, teríamos que trabalhar com homens, suas parceiras, jovens, policiais, militares e comunidades inteiras para ajudar a restaurar a fé e a confiança – para re-introduzir a empatia, para promover a paz e a igualdade em casa e em nossas comunidades.

Mas em um país onde não há psicólogos, conselheiros ou psiquiatras capacitados para essa demanda, sabíamos que esse trabalho não seria fácil. Teríamos de confiar nos recursos próprios da comunidade e ajudar a população a encontrar uma maneira de recuperar-se.

Eu sabia que terapia em grupo poderia ser uma estratégia muito eficaz para a recuperação. Assim, com a ajuda de referências de líderes comunitários, autoridades militares e outros, construímos esses grupos e começamos a nos encontrar com homens, trazendo suas esposas em momentos chave.

Para alguns homens, era difícil abrir-se no início. Eles foram convidados a falar sobre assuntos que eles nunca discutiam ou não discutiam com frequência e alguns enfrentaram críticas de amigos, familiares ou vizinhos que não entendiam o processo – ou o ponto. Nos reunindo em sessões de terapia de grupo e nos unindo à comunidade em um processo de restauração social, começamos a descascar lentamente essas camadas e a resistência desapareceu.

Nos grupos, discutimos o que significa ter poder – e sermos impotentes. O que fazer quando a raiva se transforma em violência, e como por fim a esse ciclo. Como ver força na igualdade e poder em relacionamentos pacíficos. Como questionar e redefinir o que significa ser homem e ser mulher na RDC hoje. Estas não são conversas fáceis, mas elas são essenciais para avançar e para superar o uso a violência para lidar com a dor.

O que vemos é verdadeiramente inspirador. Embora naturalmente as mudanças variem de pessoa para pessoa, esmagadoramente, após cerca de três ou quatro meses em nosso programa, homens e mulheres estão nos dizendo que os homens estão usando menos violência. Que os homens e as mulheres estão se comunicando melhor e estão se vendo como parceiros mais igualitários. E uma avaliação externa que acompanhou casais dois anos depois confirmou esse impacto também. O processo está trazendo melhorias às relações entre civis e militares e diminuindo as tensões interétnicas.

Abby, que se juntou aos grupos Living Peace, nos disse que mudar a maneira com a qual ele vivia foi difícil no início, mas que encontrou conforto em escutar as histórias de outros. Kyalu notou que, depois que Abby iniciou o processo, ele começou a falar com ela de forma diferente e a cuidar de seus filhos. Abby confessou que eles reencontraram o amor que ele pensava ter perdido.

Utilizamos este processo de terapia de grupo com sobreviventes de violência sexual, polícia, militares, maridos de sobreviventes de violência sexual relacionada a conflitos e com testemunhas de genocídio e outras formas de violência. Há mais de três anos, esse processo tem dado aos indivíduos o espaço para abordar as causas raízes da violência, para praticar empatia e promover caminhos não-violentos de recuperação para indivíduos, famílias e comunidades.

Abby e Kyalu não são os únicos que passaram por esse processo de recuperação. A gratidão, o sentimento de pertencimento que temos visto nas comunidades e o apoio do governo, nos dão a motivação para seguir em frente. Chegamos a milhares de homens e mulheres como Abby e Kyalu até o final deste ano e chegaremos a centenas de milhares nos próximos dois anos.

Há muito mais recuperação que precisa acontecer, mas acho que estamos indo na direção certa. Estou esperançoso porque sei que estamos ajudando aqueles que estão sofrendo a recuperar sua paz pessoal.

Meu nome é Benoit Ruratotoye, estou vivendo a paz e estou honrado por estar aqui hoje.

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