Pesquisa realizada por Promundo e Sonke Gender Justice na República Democrática do Congo revela que violência sexual é comum nos lares e em área de conflitos

Resultados preliminares do International Men and Gender Equality Survey – IMAGES  (Questionário Internacional sobre Homens e Igualdade de Gênero, em português) revelam que a violência sexual é tão comum nos lares como no conflito do norte de Kivu, na parte leste da República Democrática do Congo (RDC)Um novo estudo do Promundo e da Sonke Gender Justice Network realizado em Goma, na parte leste da República Democrática do Congo (RDC), revelou que mais de um terço dos homens entrevistados tinham praticado alguma forma de violência sexual e que mais de três quartos do total de entrevistados demonstravam atitudes alarmantes face aos direitos das mulheres e em particular face às situações de estupro.O relatório revelou ainda que a violência sexual, apesar de usada muitas vezes enquanto arma de guerra, reflete mais freqüentemente a aceitação generalizada de normas patriarcais e de mitos sobre o estupro que justificam e naturalizam o estupro, a subordinação quotidiana das mulheres e o sentimento de propriedade dos homens face aos corpos das mulheres. A violência sexual inclui o estupro de desconhecidos/as, o ato de forçar a companheira/o a ter relações sexuais, e outras formas de relações sexuais contra a vontade do/a parceiro/a.O estudo indica ainda que muitos homens são também vítimas de várias formas de violência, incluindo violência sexual, e demonstra uma associação clara entre a exposição à violência durante a infância e uma maior probabilidade de subseqüente perpetração de violência na idade adulta. Os resultados também confirmam a forma gravosa como o conflito na República Democrática do Congo afeta as famílias: três quartos dos homens e mulheres entrevistados tiveram de abandonar as suas casas devido ao conflito.

O estudo sublinha ainda a importância do envolvimento do governo da RDC, das agências das Nações Unidas e outros parceiros de desenvolvimento na promoção e proteção dos direitos humanos das mulheres, na transformação de normas que alimentam a violência, no fim à impunidade em situações de violência sexual, e na disponibilização de serviços psicosociais para mulheres, homens e crianças afetadas pela violência.

A aplicação do questionário, parte do Questionário Internacional sobre Homens e Igualdade de Gênero (IMAGES), foi realizado em Goma, num campo de pessoas deslocadas internas e numa base militar, localizadas em Goma,  e nas áreas rurais de Kiroche e Bweremana, situadas a 40km a sul de Goma. Devido a uma nova onda de conflito durante o período da pesquisa, as zonas rurais além de Goma estavam inacessíveis. O questionário seguiu as técnicas padronizadas de amostragem de domicílio e foi realizado com a assistência do gabinete governamental de estatística.Os resultados deste estudo confirmam que a maioria da população do leste da República Democrática do Congo continua a viver em situação de extrema pobreza e a enfrentar várias dificuldades, o que, por sua vez, gera desafios para homens e mulheres no desempenho dos papéis de gênero que lhe são socialmente associados.Enquanto que vários estudos e iniciativas se têm desenvolvido com o intuito de capacitar as mulheres e ajudá-las a se recuperar de situações de violência sexual, poucos ainda examinaram o impacto do desempoderamento econômico dos homens e as formas como as relações de gênero são afetadas pelo conflito.Este estudo visou facilitar uma compreensão mais complexa de como as relações de gênero são afetadas pelo conflito, bem como informar respostas necessárias em termos humanitários e de direitos humanos. É parte integral dos esforços do Promundo e da Sonke Gender Justice Network to envolver homens – a par com mulheres – enquanto agentes de mudança e ativistas para pôr fim à impunidade nos casos de violência sexual e baseada no gênero e promover a justiça de gênero e social.

Os principais resultados incluem:

Apesar da violência sexual em situações de conflito ter recebido mais atenção do  que a violência sexual fora de contextos de guerra, o estudo confirma a existência substancial de atitudes de apoio ao estupro entre os homens, o que corrobora a naturalização e normalização deste tipo de violência. 37% dos homens entrevistados afirmaram ter estuprado uma mulher e quase três terços dos homens acreditam que por vezes as mulheres desejam ser estupradas e que, em caso de estupro, muitas vezes as mulheres têm prazer e desfrutam. Quase metade dos homens inquiridos acreditam que não existe estupro se uma mulher não resiste fisicamente quando é forçada a ter relações sexuais e que o homem deve rejeitar a sua companheira no caso de esta ter sido estuprada, o que é especialmente preocupante dados os índices elevados de estupro no conflito que se vive no país.

48% dos homens afirmaram ter perpetrado algum tipo de violência física baseada no gênero contra as companheiras, enquanto que 53% das mulheres declararam que tinham sido vítimas de violência baseada no gênero por parte do companheiro.

9% de todos os homens e 22% de todas as mulheres entrevistadas afirmaram ter sido vítimas de violência sexual durante o conflito. Além disso, 16% dos homens inquiridos declararam ter sido forçados a testemunhar estupros perpetrados por outros.

O fato de homens terem testemunhado violência cometida contra as suas mães durante a sua infância está estatisticamente associado, segundo os dados deste estudo, com o uso de violência física por parte dos homens contra companheiras do sexo feminino. Idade (homens mais velhos tendem a demonstrar índices mais elevados de perpetração de violência de gênero), nível educacional (níveis de escolaridade mais baixos são associados com maiores índices de utilização de violência de gênero), e consumo de álcool também têm associações significativas com os relatos de homens sobre a perpetração de violência de gênero.

Pelo menos metade da população vive abaixo do limiar de pobreza (com menos de 1 dólar por dia), e a fome é uma realidade quotidiana para os inquiridos. 40% dos homens e 43% das mulheres entrevistadas apenas fazem uma refeição por dia, enquanto que 12% das mulheres e 11% dos homens fazem apenas uma refeição a cada dois dias.

Além das dificuldades materiais e da fome, os efeitos da falta de trabalho e dinheiro para sustentar as famílias são uma fonte de imenso estresse para homens e mulheres. Geralmente os homens sentem-se envergonhados e deprimidos quando não são capazes de sustentar as suas famílias. 72% dos homens afirmaram ter vergonha de enfrentar as famílias em caso de falta de trabalho; 75% tinham vergonha de lidar com a família devido à sua incapacidade de prover as necessidades financeiras básicas; e 78% sentiam-se muitas vezes estressados ou deprimidos em resultado de estarem desempregados/sem trabalho.O diretor internacional do Promundo, Dr. Gary Barker afirmou que, “A República Democrática do Congo tem sido freqüentemente designada como “o pior lugar do mundo para ser mulher.” Este estudo confirma que Goma e as áreas rurais próximas estão entre os piores locais do mundo para se ser mulher ou homem, e que somente quando as relações de gênero forem transformadas de fato, envolvendo mulheres e homens, e a justiça de gênero for alcançada e for acompanhada de justiça social, é que será possível obter a transformação necessária nas vidas das mulheres, homens e crianças que consideram Goma e à região norte do Kivu como a sua casa.”

Sobre o IMAGES
O Questionário Internacional sobre Homens e Igualdade de Gênero – criado e coordenado pelo Promundo e pelo International Center for Research on Women – é um dos estudos mais abrangentes de sempre sobre as práticas e atitudes dos homens relativamente à igualdade de gênero, dinâmicas familiares, violência nas relações íntimas, saúde e estresse econômico. Até ao final de 2012, o questionário terá sido aplicado em nove países (incluindo a República Democrática do Congo). Os dados recolhidos têm fornecido informações importantes sobre o uso de violência por parte dos homens nas relações de intimidade, a participação dos homens nas tarefas de prestação de cuidado e as reações dos homens à agenda global de igualdade de gênero, entre outros temas.
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